Buscando a palavra mais certa

Quando escrevo, eu mando a tristeza embora - o que não significa dizer que ela vá. Na maioria das vezes, fica: se disfarça, se esconde e se confunde comigo mesma.

15.10.09

A Lagart

Venho por meio desta manifestar o meu repúdio ao fato ocorrido no dia 03 de abril, no refeitório do conceituado Jornal A TARDE, onde almoço com certa freqüência.

Em plena hora do rush alimentar, uma lagartixa indefesa tentava se abrigar sob as rodelas de tomates verdes crus, expostas na mesa térmica, quando foi bruscamente arrancada do seu idílio por uma funcionária faminta em busca de salada. Ainda bem que não como saladas! Elas sempre reservam surpresas, quando não lagartos, lagartixas!

Durante o episódio, que teria tudo para ser cômico, se não tivesse sido trágico, um líquido vermelho espirrou na minha mesa. Não posso assegurar, como asseguro as demais passagens desta carta-denúncia, se o tal líquido era sangue da vitima, já que esta foi espetada pelo garfo ferino da funcionária, ou se era um tipo barato de vinagre. Só sei que o tal líquido era de um vermelho ralo, quase transparente, que, antes de me causar revolta, causou-me nojo.

Aproveitando-me do burburinho que se estabeleceu no local, levantei-me e saí do estabelecimento sem pagar a conta. Foi a catarse! Era o mínimo que eu poderia fazer pela lagartixa. Era a forma de eu me sentir vingada por aquele ser que mal conheci, mas que foi para mim, em seus últimos minutos de vida (?), motivo de grande comoção...

Se me arrependo do que fiz? Sim. Arrependo-me. Não por ter saído sem pagar, mas por ter sido covarde e não ter lutado em defesa da pobre lagartixa. Mas, assim como ela, também fiquei sem ação.

Preciso parar por aqui, pois não sei o final da história. E provavelmente nunca saberei. Jamais voltarei àquele recinto imundo! Mas a dúvida continuará para sempre em minha cabeça: será que lá dentro, para onde a vítima foi covardemente arrastada, juntou-se aos seus inúmeros amigos desavisados, que, assim como ela, um dia foram pegos de surpresa? Será que a coitada deixou órfão algum filho, que agora a procura por entre pratos, talheres, cebolas e água de feijão? Será que seu rabo, friamente arrancado do corpo, balança freneticamente clamando por socorro?

Desculpe-me, caro leitor, mas essas perguntas não posso responder. Compartilho com você a preocupação com o destino da pobre lagartixa, cujo único crime cometido foi estar no dia errado, na hora errada, na salada errada.