Justa Causa
Quase sempre ele passava em sua sala para desejar-lhe um bom dia. No início, da porta mesmo emitia o cumprimento. Aos poucos, passou a entrar, a se deixar ficar uns minutinhos mais, a examinar os livros na estante, a portar o jornal do dia em busca de notícias que pudessem render uma conversa maior.
Não levou muito tempo, passou a pedir que seu café da manhã fosse entregue na própria empresa, ou melhor, na sala dela. Para ela, aquilo era uma tentação. Não ele. Mas o café, o pão, a manteiga. Ela que vivia de dieta.
Sentindo-se cada vez mais à vontade, quiçá íntimo, passou a chegar mais perto, tocar-lhe o ombro, beijar-lhe suavemente o rosto. Tudo pareceu muito natural a ela que sempre fora desmedidamente afetuosa. Até o selinho que, certa feita, ele lhe deu sorrateiramente soou natural.
Depois de 2 ou 3 toques de lábios, ele trouxe uma novidade: a língua. Ela ficou apavorada. Não que ela não conhecesse ou gostasse do músculo adentrando-lhe a boca. Não. Eles estavam em ambiente de trabalho. A porta destrancada. Só que trancá-la poderia provocar um escândalo maior do que o flagrante de um beijinho inofensivo. A tranca poderia dar margens a imaginações e despautérios. O que, numa empresa de filosofia reacionariamente heterossexual, um homem e uma mulher estariam fazendo trancados em uma sala? Na verdade, pra cabeça daquelas pessoas, eles não podiam sequer estar conversando, afinal, eram de setores diferentes. Não, eles não tinham nada em comum.
Ela sempre pareceu muito moderna: nas roupas, nas tatuagens, nos piercings. Mas no fundo, no fundo era uma conservadora. O máximo de modernidade que ela conseguiu atingir na vida foi assumir-se gay. Já se achava transgressora demais por isso. Mas aqueles lábios, aquela língua, aquele homem lindo, loiro e casado colocaram por terra tudo o que ela sabia de moral, bons costumes e de si mesma.
Na contramão do perigo e de suas próprias convicções, e sem questionar muito o que lhe movia, ela passou a chegar mais cedo ao trabalho, a se vestir melhor, a por uma gotinha a mais de perfume, a ir ela mesma à sala dele. Passou a tentá-lo nas reuniões, roçando pernas, enviando-lhe olhares convidativos, escrevendo-lhe bilhetinhos insanos.
Ceder à tentação ali, na mesa do escritório (no banheiro que fosse), era muito risco. Alguém poderia esquecer uma pasta e voltar de repente. A ideia excitava, mas o “contas a pagar” falava mais alto. Porém eis que houve uma chance. Uma noite, os dois sozinhos na empresa. Ele pediu que ela ficasse. Ela desejou o mesmo. Hesitou. Mas, arrimo de família, foi-se embora.
Ao tempo em que descia o elevador, subia nela a vontade desesperada de dar vazão a tudo o que sentia ou queria sentir. Aquele era o momento ideal. Os dois, sozinhos. Mas ela foi fraca: resistiu. Lembrou que era gay de carteirinha. Entrou no carro, deu a partida, engatou a primeira e, talvez de propósito, deixou o carro morrer. Ganhou tempo. Ligou o carro de novo. Deu ré. Parou. Pensou. Ligou pra ele.
Ele riu, desligou o telefone e foi até o G.
Não levou muito tempo, passou a pedir que seu café da manhã fosse entregue na própria empresa, ou melhor, na sala dela. Para ela, aquilo era uma tentação. Não ele. Mas o café, o pão, a manteiga. Ela que vivia de dieta.
Sentindo-se cada vez mais à vontade, quiçá íntimo, passou a chegar mais perto, tocar-lhe o ombro, beijar-lhe suavemente o rosto. Tudo pareceu muito natural a ela que sempre fora desmedidamente afetuosa. Até o selinho que, certa feita, ele lhe deu sorrateiramente soou natural.
Depois de 2 ou 3 toques de lábios, ele trouxe uma novidade: a língua. Ela ficou apavorada. Não que ela não conhecesse ou gostasse do músculo adentrando-lhe a boca. Não. Eles estavam em ambiente de trabalho. A porta destrancada. Só que trancá-la poderia provocar um escândalo maior do que o flagrante de um beijinho inofensivo. A tranca poderia dar margens a imaginações e despautérios. O que, numa empresa de filosofia reacionariamente heterossexual, um homem e uma mulher estariam fazendo trancados em uma sala? Na verdade, pra cabeça daquelas pessoas, eles não podiam sequer estar conversando, afinal, eram de setores diferentes. Não, eles não tinham nada em comum.
Ela sempre pareceu muito moderna: nas roupas, nas tatuagens, nos piercings. Mas no fundo, no fundo era uma conservadora. O máximo de modernidade que ela conseguiu atingir na vida foi assumir-se gay. Já se achava transgressora demais por isso. Mas aqueles lábios, aquela língua, aquele homem lindo, loiro e casado colocaram por terra tudo o que ela sabia de moral, bons costumes e de si mesma.
Na contramão do perigo e de suas próprias convicções, e sem questionar muito o que lhe movia, ela passou a chegar mais cedo ao trabalho, a se vestir melhor, a por uma gotinha a mais de perfume, a ir ela mesma à sala dele. Passou a tentá-lo nas reuniões, roçando pernas, enviando-lhe olhares convidativos, escrevendo-lhe bilhetinhos insanos.
Ceder à tentação ali, na mesa do escritório (no banheiro que fosse), era muito risco. Alguém poderia esquecer uma pasta e voltar de repente. A ideia excitava, mas o “contas a pagar” falava mais alto. Porém eis que houve uma chance. Uma noite, os dois sozinhos na empresa. Ele pediu que ela ficasse. Ela desejou o mesmo. Hesitou. Mas, arrimo de família, foi-se embora.
Ao tempo em que descia o elevador, subia nela a vontade desesperada de dar vazão a tudo o que sentia ou queria sentir. Aquele era o momento ideal. Os dois, sozinhos. Mas ela foi fraca: resistiu. Lembrou que era gay de carteirinha. Entrou no carro, deu a partida, engatou a primeira e, talvez de propósito, deixou o carro morrer. Ganhou tempo. Ligou o carro de novo. Deu ré. Parou. Pensou. Ligou pra ele.
Ele riu, desligou o telefone e foi até o G.
