Buscando a palavra mais certa

Quando escrevo, eu mando a tristeza embora - o que não significa dizer que ela vá. Na maioria das vezes, fica: se disfarça, se esconde e se confunde comigo mesma.

11.5.16

Do homem, seus medos bobos e coragens absurdas.

O tempo passa, mas uma coisa não muda: os homens (ah! Os homens...) continuam me impressionando. E, neste mês de conscientização sobre o câncer de próstata, é inevitável me lembrar de alguns de seus medos. Homem faz pouco caso das mulheres e seu medo ancestral de baratas. Devo dizer que, apesar de ser uma legitima representante do gênero (sqn), não tenho nenhum medo desse inseto. Tenho verdadeiro pavor, principalmente quando perco uma de vista ou quando a sacana abre as asas e dá aquele voozinho rasante sobre minha cabeça. Peço a morte. Mas os homens conseguem ser muito piores. Eles têm medo de algo que pode lhes salvar a vida. O toque retal, por exemplo. Veja só, tsc, um negócio que parece tão prazeroso. Não creio que seja o medo da dor em si, porque dizem (é, dizem) que não dói nada. E, aqui pra nós, entre quatro paredes, já vi muito marmanjo curtindo essa aterração, aterramento... Não sei o nome correto da prática (o nome). O autocorretor do Word está sublinhando essa palavra. Mas o que quero dizer é que tem muito homem (hétero) que curte fio terra. Calma, meninos! Fiquem tranquilos. Não vou citar nomes. Tudo bem que os exemplos credibilizam. Mas eu prefiro perder a credibilidade, se é que tenho alguma, do que perder a foda. Então, combinado, né? Eu não cito seu nome (tá bom, tá bom, nem as iniciais), nem você me boicota. E a gente continua dando uma quando der. Apois, já que não é medo de sentir dor, porque, como disse, alguns homens, aliás, muitos, adoram um dedinho ou dois (e otras cositas más), não me resta tanta justificativa assim para tamanha resistência. Já ouvi falar que essa atitude defensiva seja medo de virar viado. Mas eu também acho que não tem nada a ver. Não é o dedo de um especialista que faz a gente pegar gosto pela coisa. Ao contrario. É o dedo amador, sem luva, com calos, mão ligeiramente suja de graxa (ah! Os mecânicos...). Já ouvi dizer que a pessoa é para o que nasce. Então, não tem pra onde correr. No fundo, no fundo, acho que os homens têm medo do que as pessoas vão pensar. Já pensou encontrar aquele vizinho fofoqueiro bem em frente ao consultório do urologista? Seria o fim, não? Não, eu não acho. O fim é a morte, e esta começa com a ignorância. Bom, dos medos masculinos eu já falei. Da coragem, engraçado... Não me lembrei de nenhuma. Ah! Me ocorreu uma agora. Uma coragem absurda, por sinal. Mas isso é assunto para um próximo texto. Até lá.

NÃO TÁ FÁCIL PRA NINGUÉM. OU TÁ?

Depois de ficar alguns anos na pista, tô procurando uma vaga para acostar. Tipo alguém fixo, saca? Nos últimos três meses, conheci, no sentido bíblico da palavra, uns 5 caras. Não sei se esse número é assim tão expressivo. Tem algum site que calcula essa zorra? Ah, deixa lá! Amanhã falo com minha terapeuta, apesar de já saber a resposta, ou melhor, a pergunta: tem regra? Não sei se posso dizer que não tá fácil pra ninguém, porque tem quem não esteja pegando nem isso. E olhe que eu sou seletiva pra caramba, viu? Mas tem gente que, ao longo da vida, só pega um, aquelas tias de antigamente, por exemplo. Isto sem falar nos que morrem virgens, né? Pô, coitados, gente. Sacanagem... Então, melhor evitar dizer isso, porque, pra mim, talvez esteja fácil, sim. Talvez eu que esteja dificultando. E outra coisa: também venho aprendendo a cultivar a gratidão. Por isso vou parar de dizer que tá difícil. Mas que tá foda, tá. Putz! Depois de escrever esse 5 lá em cima, fiquei encucada. Ainda bem que não foi em número cardinal, senão, seria pior. Deixe assim mesmo, em arábico. Pois é, esses algarismos, para mim, de certa forma, são representativos, porque veem carregados de uma espécie de frustração, saca? É... pô, frustração. Mas, por outro lado, botando na ponta do lápis, acho 5 muito pouco. Traduzindo em algoritmo... Porra, algoritmo não. Ninguém vai entender. Acho que nem eu. Então, traduzindo em bom português, ou melhor, em orgasmo, isso não dá 10 minutos corridos. Caralho! É foda, velho. Isso porque teve um filho de Deus que me deu uma alegriazinha. Se não fosse essa boa alma (e bom corpo, vale dizer), era zero prazer messsssssmo. Estou falando de mim, porque para eles, com certeza valeu e muito. E digo isso sem falsa modéstia, porque, se tem algo em que eu invisto, é na arte de dar prazer. E dou. Como não quero ser injusta, de todos os cabras dos últimos meses, teve esse que foi coisa de cinema (filme pornô, claro). Era o pica das galáxias. Sim, você pode me perguntar, e por que não deu certo? Bom, essa é uma expressão que eu nem costumo usar. Nem quando o bolo queima. Porque dar certo, para mim, não significa ser pra sempre. Dar certo, em termos de relacionamento, é fazer os envolvidos felizes por um tempo. Nesse caso, deu certo por uma semana ou duas. E olhe que eu sou do tipo que acredita, que investe, que banca a ideia. Não começo um lance com o pé atrás, saca? Me jogo de cabeça, não tenho frescura, regrinha, pé no chão, traumas. Ainda que tenha havido uma ou outra inversão de expectativa, não dirijo olhando pro retrovisor. Dou um saque de vez em quando, mais para rir do que ficou pra trás do que para projetar o que vem pela frente. Esse cara aí é o único que vale a pena citar. Não que os outros sejam imprestáveis. São gente boa até. Ainda tenho o telefone deles gravado. Vai que... né? Ô... Mas saca aqueles caras que não acrescentam? Ao contrário, só sugam: tempo, paciência, grana, energia. E minha energia é algo que prezo muito. Mesmo o sexo, de que tanto falo, é energia, né? Então. Pô, esse cara era massa. Tinha uma grande chance comigo. Mas, infelizmente, um complexo de inferioridade maior ainda, uma insegurança, sei lá... algo que me sufocava. E por mais que eu queira alguém fixo, não quero alguém grudado. Não quero prender, nem ser prisioneira. Preciso de liberdade incondicional, individualidade, autonomia de voo. É uma pena, viu? Porque, de boa, foi a melhor trepada de minha vida. Mas vale a pena namorar uma pessoa só porque ela é boa de cama? Pra mim, uma boa trepada não vale a minha paz de espírito. Mas, por outro lado, dá pra ter paz sem trepar?

20.1.14

I believe in DOG

Estava chuviscando quando saí da agência para almoçar. Era em torno de 13 horas. Segui pela Orla, dobrei à esquerda, mas não caí no mar, nem em mim. Estava distraída. Aliás, mais ou menos. Passei por um carro adesivado com uma informação que me interessava. Alguns metros à frente, decidi parar. Estacionei, mas não desliguei o motor. Desci do carro, fui até a adesivagem, anotei um número, vim discando. Entrei no carro. Ocupado. Voltei, anotei outro número. Fora de área. Por mim, não era nada tão urgente assim. Antes, precisava almoçar e levar umas roupas para lavar. Chegando perto da galeria onde costumo almoçar, estacionei. Dessa vez, desliguei o carro, claro. Em frente a uma casinha modesta, um cachorro preto me abanava o rabo. Meti a mão pelo portão, sem medo, troquei meia dúzia de palavras com ele e lhe fiz uns afagos. Ele me retribuiu com lambidas. Aprendi, não sei onde, que quando um cachorro lhe abana o rabo, não vai morder. Confio nisso. Às vezes dá certo. Mas eis que a chuva engrossou e precisei me despedir do meu mais novo amigo, prometendo voltar um dia. Não cheguei a correr, porque ninguém se despede, correndo, de um cachorro, mesmo sob chuva. Ao chegar à galeria, soube que o lugar tinha acabado de ser assaltado. Pois é, escapei por pouco. Há os que acreditam em milagre. Há os que acreditam em acaso. Eu continuo acreditando em cachorro. E cachorro preto dá sorte.

25.4.12

FESTIVAL INTERNACIONAL DE CINEMA INFANTIL

30.6.11

Justa Causa

Quase sempre ele passava em sua sala para desejar-lhe um bom dia. No início, da porta mesmo emitia o cumprimento. Aos poucos, passou a entrar, a se deixar ficar uns minutinhos mais, a examinar os livros na estante, a portar o jornal do dia em busca de notícias que pudessem render uma conversa maior.

Não levou muito tempo, passou a pedir que seu café da manhã fosse entregue na própria empresa, ou melhor, na sala dela. Para ela, aquilo era uma tentação. Não ele. Mas o café, o pão, a manteiga. Ela que vivia de dieta.

Sentindo-se cada vez mais à vontade, quiçá íntimo, passou a chegar mais perto, tocar-lhe o ombro, beijar-lhe suavemente o rosto. Tudo pareceu muito natural a ela que sempre fora desmedidamente afetuosa. Até o selinho que, certa feita, ele lhe deu sorrateiramente soou natural.

Depois de 2 ou 3 toques de lábios, ele trouxe uma novidade: a língua. Ela ficou apavorada. Não que ela não conhecesse ou gostasse do músculo adentrando-lhe a boca. Não. Eles estavam em ambiente de trabalho. A porta destrancada. Só que trancá-la poderia provocar um escândalo maior do que o flagrante de um beijinho inofensivo. A tranca poderia dar margens a imaginações e despautérios. O que, numa empresa de filosofia reacionariamente heterossexual, um homem e uma mulher estariam fazendo trancados em uma sala? Na verdade, pra cabeça daquelas pessoas, eles não podiam sequer estar conversando, afinal, eram de setores diferentes. Não, eles não tinham nada em comum.

Ela sempre pareceu muito moderna: nas roupas, nas tatuagens, nos piercings. Mas no fundo, no fundo era uma conservadora. O máximo de modernidade que ela conseguiu atingir na vida foi assumir-se gay. Já se achava transgressora demais por isso. Mas aqueles lábios, aquela língua, aquele homem lindo, loiro e casado colocaram por terra tudo o que ela sabia de moral, bons costumes e de si mesma.

Na contramão do perigo e de suas próprias convicções, e sem questionar muito o que lhe movia, ela passou a chegar mais cedo ao trabalho, a se vestir melhor, a por uma gotinha a mais de perfume, a ir ela mesma à sala dele. Passou a tentá-lo nas reuniões, roçando pernas, enviando-lhe olhares convidativos, escrevendo-lhe bilhetinhos insanos.

Ceder à tentação ali, na mesa do escritório (no banheiro que fosse), era muito risco. Alguém poderia esquecer uma pasta e voltar de repente. A ideia excitava, mas o “contas a pagar” falava mais alto. Porém eis que houve uma chance. Uma noite, os dois sozinhos na empresa. Ele pediu que ela ficasse. Ela desejou o mesmo. Hesitou. Mas, arrimo de família, foi-se embora.

Ao tempo em que descia o elevador, subia nela a vontade desesperada de dar vazão a tudo o que sentia ou queria sentir. Aquele era o momento ideal. Os dois, sozinhos. Mas ela foi fraca: resistiu. Lembrou que era gay de carteirinha. Entrou no carro, deu a partida, engatou a primeira e, talvez de propósito, deixou o carro morrer. Ganhou tempo. Ligou o carro de novo. Deu ré. Parou. Pensou. Ligou pra ele.

Ele riu, desligou o telefone e foi até o G.

Motel está fora do programa de domingo

Admiro quem consegue aderir a essa tal de Simplicidade Voluntária. Mas, para mim, por enquanto, não dá. Procuro trabalhar o desapego, só que ainda não me vejo abrindo mão de certas comodidades, como um carro, por exemplo.

Se Salvador tivesse um serviço de transporte público decente, vá lá. Mas não é o caso.

Bicicleta é uma excelente opção, mas para as cidades mais frias. Cidades que lhe permitem sair de casa e chegar ao trabalho com a elegância blasé dos que não suam.

O carro facilita e muito o meu direito de ir e vir, mesmo quando a cidade está parada. É punk praticar a simplicidade voluntária e ter que andar de ônibus em Salvador. Pense aí: engarrafamento, um calor da zorra, buzu lotado, você ali em pé com sua mochila pesada, os sentados fingindo que estão dormindo pra não lhe darem uma força, branquinho fazendo fio terra.

Tudo isso, é claro, considerando o fato de que o motorista não passou direto, nem por fora do ponto, e que você conseguiu entrar no “humilhante” (definição do Dicionário de Baianês).

Fico aqui me perguntando como aquele senhor que passou no Fantástico, o que se desfez do carro e das motos, vai pra motel. É fato que tem gente que vai andando ou de táxi. Mas é foda. Se bem que, pra essa galera aí, motel deve ser um puta luxo.

18.1.11

Urubu na Turbina

Tudo aconteceu em um extenuante voo Rio de Janeiro - Luanda, voo esse que pode muito bem ser chamado de Navio Negreiro – o retorno.

Apesar de preferir as poltronas do corredor, decidi que dessa vez iria à janela. Talvez pudesse dormir um pouco e me resguardar dos delicados safanões das comissárias de bordo, que acordam os passageiros na hora do serviço ou empurram o carrinho por sobre as pernas e braços que encontram no caminho.

Fui uma das primeiras a entrar na aeronave. Claro! Saí da Bahia às 9 da manhã e estava há mais de 8 horas no Galeão, esperando pelo embarque. Tudo o que eu queria naquele momento era me sentar numa poltrona, mesmo de classe econômica, tomar meu Lexotan de 6 e dormir o sono dos que se acham justos.

Enquanto os demais passageiros entravam, um homem sentou perto de mim, na poltrona do corredor. Até aí tudo bem. Ao menos não era colado comigo. Eu estava apreensiva, olhava toda hora a porta do avião, para ver se ela finalmente se fechava e eu garantia a minha privacidade: ninguém, além das nuvens, ao meu lado.

A cada pessoa que se aproximava, um sobressalto. Ufa! Graças a Deus, passou direto. Acho que o vizinho do corredor percebeu minha tensão, pois perguntou se era a primeira vez que eu viajava de avião. Respondi que, para Luanda, e com a poltrona vazia ao lado, se Deus ajudasse, seria a segunda. E isso, para mim, era o mesmo que estar na primeira classe da Singapore Airlines.

O cara começou a puxar papo. Como eu ainda tinha alguns minutinhos até o antipirante fazer efeito, dei trela.

No início, amenidades: onde mora, o que faz, com quem vive… No meio, uma poltrona vazia. Maravilha! O passageiro não embarcou. No final, a troca de gentilezas: “olha, fique à vontade, se quiser esticar as pernas, viu?”. “Você pode ficar com uma metade da cadeira, e eu com a outra metade”. Mas ele me superou na cordialidade: sugeriu algo que, na minha visão humanitarista, pareceu muito natural: “bem, se você quiser colocar as pernas no meu colo, tranquilo, tá?”. Eu relutei, pelo simples fato de não querer ser inconveniente, parecer folgada. Mas ele insistiu tanto que eu me permiti. Afinal, compartilho do ideal de Thiago de Mello e confio no homem como a palmeira confia no vento.

O cara estava longe de fazer meu tipo. Era outra rota. Nada a ver. E eu também não estava procurando um affair on air. Estava de boa. Quero dizer, mais ou menos. A onda do antipirante ainda não tinha batido.

Nooosssaaa! Fiquei feliz da vida. Não por poder repousar os meus pés calejados num lugar macio (?). Isso era o de menos. Mas por saber que existem pessoas, assim como eu, que pensam no bem-estar do outro.

Com os pés no colo do bom samaritano, avisei: “ó, daqui a pouco a medicação vai fazer efeito, viu? Não ligue, não, se eu te deixar falando sozinho”. Aaahhh! Ele me deixou super à vontade. E me pareceu que também se sentia assim, afinal, não demorou muito e começou a massagear meus pés. Opa! Era bom demais para ser verdade. Um humanitarista com noções de reflexologia podal. Perfeito! Eu amo massagens. Sempre que posso faço cursos ou algumas sessões para dissolver as couraças acumuladas pelas neuras do dia a dia.

Eu queria dormir. Mas fiquei ali, de olhos fechados, viajando na ideia de que ainda existem seres humanos abnegados. Pô! O cara sabia que eu estava há horas zanzando no Galeão, imaginou que meus pés estivessem cansados e me ofereceu mão amiga. Massa!

Mão vai, mão vem, eu acabei pegando no sono. Contudo, fui logo acordada por ele, que, preocupado com o meu conforto, sugeriu uma posição melhor: “vamos fazer assim, ó: a gente troca de lugar, eu vou para a janela, você vem e deita a cabeça no meu colo”.

É, talvez à janela ele ficasse mais confortável. Mas, como eu não sou tão boba quanto pareço, pensei comigo: “rapaz, esse cara é humanitarista mesmo ou tá querendo se aproveitar da minha boa-fé?”. Como fiel (quero dizer: mais ou menos) seguidora da moral cristã, preferi não maldar. Mas, para garantir, peguei todos os travesseiros disponíveis, todos os cobertores extras e ajeitei no colo dele, para que não houvesse nenhum contato entre a sua genitália e o meu rosto. Ainda mais que eu tenho o grave defeito de dormir de boca aberta e babar. Já pensou?

Devidamente resguardada, agradeci a generosidade e o desprendimento do meu companheiro de voo, e mais novo amigo, e me deitei. Só que não relaxei de primeira. É certo que o tranquilizante não estava fazendo efeito, mas o que me inquietava era aquele homem ali. Eu precisava descobrir qual era a dele, saber se realmente poderia me entregar a Morfeu ou se deveria me sair de problema.

Para não perder tempo com a investigação, fingi logo que estava dormindo. Ele também não perdeu tempo: começou a me alisar, a fazer carinho em minhas costas, a mexer em meus cabelos…

Eu, que fingia estar dormindo, comecei a achar que havia alguma coisa estranha no ar. Demorou, né? Mas ainda assim nos concedi o benefício da dúvida. A propósito, tem uma comunidade num desses sites de relacionamento cujo nome é: “Sou legal, não tô te dando mole”. E se de repente o cara só estivesse sendo legal mesmo? Afinal, eu também sou assim. E fico puta quando me confundem com uma.

Não demorou muito e o sujeito começou a se empolgar. Na verdade, acho que já estava empolgado, eu é que não quis acreditar. Só sei que ele beijava de maneira afoita minhas costas e minha cabeça, que pensava: “rapaz, esse cara não é humanitarista porra nenhuma! Ele é um bom é de um escroto”.

Eu precisava cortar as asinhas dele. Isso estava claro. Mas não queria provocar um mal-estar, ser deselegante. Só que não teve jeito. A deselegância partiu dele: “ei! vire aí, vá! Vire aí!”. Eu, que estava com a cabeça voltada para a poltrona da frente, perguntei: “virar pra onde, rapaz? Cê é maluco, é?”. Ele respondeu: “para eu te dar o beijo de boa noite”.

Nessa hora, minha cabeça entrou em turbulência, minhas ideias perderam a conexão, se é que havia alguma. Parecia que tinha entrado um urubu na minha turbina. Levantei rapidamente procurando a máscara de oxigênio. Fiquei tonta. Não sei se por causa do levantar abrupto, do tranquilizante ou se pelo que acabara de ouvir. Aliás, até hoje eu me pergunto se ouvi mesmo alguma coisa. Sei lá… esses remédios costumam alterar nossa percepção.

Pelo sim, pelo não, resolvi cair fora. Peguei meu cobertor, meu travesseiro, minha bagagem de mão e fui em direção à porta de saída. Fiquei ali prostrada, como quem espera a parada do ônibus.

A chefe de cabine não entendeu nada. Veio em minha direção, perguntou se eu estava bem e se eu queria um uisquinho para relaxar. Era só o que me faltava: uísque com tarja preta. O verdadeiro black label.

Como eu já estava zonza demais, preferi recusar. A única coisa que eu precisava naquele momento era de um pouso de emergência, pois havia pegado o voo errado. O avião que oferece ajuda humanitária é o da ONU. Não o da TAAG.

Luanda,
Dezembro de 2010.

3.1.11

Música é afrodisíaco

Hoje eu e uns colegas de trabalho conversávamos sobre músicas afrodisíacas. Não sei se a expressão existe. Mas o que quero significar é a velha e boa fuck music. Cada um falou do que gostava. Não na cama, obviamente. Na vitrola. Ou melhor, no tal MP3 player.

Na conversa ouviu-se de tudo: Marvin Gaye, Etta James, Paulo Flores, Amado Batista. Sim, o papo era na copa.

Conversa vai, riso vem, fica claro que música é gosto. Algo que definitivamente não se discute. Os muitos repertórios sugeridos fazem parte do universo particular de cada um. E é sempre um prazer penetrar novos mundos, conhecer os prazeres do outro, revelar os seus.

Certa vez um namoradinho meu se surpreendeu com o som que eu coloquei especialmente para ele. Preparei todo o clima: vinho, velas, lençóis e, na hora do striptease, Glory Box ou qualquer coisa do Portishead que o valha. Não lembro ao certo. Mas, para minha quase estupefação, o menino disse que aquilo parecia música de bruxa.

O comentário inoportuno não chegou a ser um balde de água fria naquela noite que eu pretendia incendiária. Eu estava muito compenetrada para me deixar broxar por uma observação inocente e despretensiosa. Mas agora, já vestida, paro pra pensar, ou melhor, escutar, e concluo: ele tinha razão. A música é realmente - com o perdão do recurso visual – sombria, noir, ainda que me aflore a libido.

É certo que o sexo preexiste à música. Mas para a condução de uma transa inesquecível, música é fundamental. Agora o que vai rolar nas pick-ups de cada um vai do gosto do freguês - ainda que o sexo seja de graça.

Sempre vai existir um tipo de música para embalar um modelo de transa, mesmo que no auge do prazer a gente nem lembre que o som está ligado. E nesse momento, em que, outros sons enchem espaço (para não dizer que não falei de música), cada par dança ao ritmo dos ruídos que improvisa.

2.2.10

Respeite minha onda

Flor no mar é sujeira.