Tudo aconteceu em um extenuante voo Rio de Janeiro - Luanda, voo esse que pode muito bem ser chamado de Navio Negreiro – o retorno.
Apesar de preferir as poltronas do corredor, decidi que dessa vez iria à janela. Talvez pudesse dormir um pouco e me resguardar dos delicados safanões das comissárias de bordo, que acordam os passageiros na hora do serviço ou empurram o carrinho por sobre as pernas e braços que encontram no caminho.
Fui uma das primeiras a entrar na aeronave. Claro! Saí da Bahia às 9 da manhã e estava há mais de 8 horas no Galeão, esperando pelo embarque. Tudo o que eu queria naquele momento era me sentar numa poltrona, mesmo de classe econômica, tomar meu Lexotan de 6 e dormir o sono dos que se acham justos.
Enquanto os demais passageiros entravam, um homem sentou perto de mim, na poltrona do corredor. Até aí tudo bem. Ao menos não era colado comigo. Eu estava apreensiva, olhava toda hora a porta do avião, para ver se ela finalmente se fechava e eu garantia a minha privacidade: ninguém, além das nuvens, ao meu lado.
A cada pessoa que se aproximava, um sobressalto. Ufa! Graças a Deus, passou direto. Acho que o vizinho do corredor percebeu minha tensão, pois perguntou se era a primeira vez que eu viajava de avião. Respondi que, para Luanda, e com a poltrona vazia ao lado, se Deus ajudasse, seria a segunda. E isso, para mim, era o mesmo que estar na primeira classe da Singapore Airlines.
O cara começou a puxar papo. Como eu ainda tinha alguns minutinhos até o antipirante fazer efeito, dei trela.
No início, amenidades: onde mora, o que faz, com quem vive… No meio, uma poltrona vazia. Maravilha! O passageiro não embarcou. No final, a troca de gentilezas: “olha, fique à vontade, se quiser esticar as pernas, viu?”. “Você pode ficar com uma metade da cadeira, e eu com a outra metade”. Mas ele me superou na cordialidade: sugeriu algo que, na minha visão humanitarista, pareceu muito natural: “bem, se você quiser colocar as pernas no meu colo, tranquilo, tá?”. Eu relutei, pelo simples fato de não querer ser inconveniente, parecer folgada. Mas ele insistiu tanto que eu me permiti. Afinal, compartilho do ideal de Thiago de Mello e confio no homem como a palmeira confia no vento.
O cara estava longe de fazer meu tipo. Era outra rota. Nada a ver. E eu também não estava procurando um affair on air. Estava de boa. Quero dizer, mais ou menos. A onda do antipirante ainda não tinha batido.
Nooosssaaa! Fiquei feliz da vida. Não por poder repousar os meus pés calejados num lugar macio (?). Isso era o de menos. Mas por saber que existem pessoas, assim como eu, que pensam no bem-estar do outro.
Com os pés no colo do bom samaritano, avisei: “ó, daqui a pouco a medicação vai fazer efeito, viu? Não ligue, não, se eu te deixar falando sozinho”. Aaahhh! Ele me deixou super à vontade. E me pareceu que também se sentia assim, afinal, não demorou muito e começou a massagear meus pés. Opa! Era bom demais para ser verdade. Um humanitarista com noções de reflexologia podal. Perfeito! Eu amo massagens. Sempre que posso faço cursos ou algumas sessões para dissolver as couraças acumuladas pelas neuras do dia a dia.
Eu queria dormir. Mas fiquei ali, de olhos fechados, viajando na ideia de que ainda existem seres humanos abnegados. Pô! O cara sabia que eu estava há horas zanzando no Galeão, imaginou que meus pés estivessem cansados e me ofereceu mão amiga. Massa!
Mão vai, mão vem, eu acabei pegando no sono. Contudo, fui logo acordada por ele, que, preocupado com o meu conforto, sugeriu uma posição melhor: “vamos fazer assim, ó: a gente troca de lugar, eu vou para a janela, você vem e deita a cabeça no meu colo”.
É, talvez à janela ele ficasse mais confortável. Mas, como eu não sou tão boba quanto pareço, pensei comigo: “rapaz, esse cara é humanitarista mesmo ou tá querendo se aproveitar da minha boa-fé?”. Como fiel (quero dizer: mais ou menos) seguidora da moral cristã, preferi não maldar. Mas, para garantir, peguei todos os travesseiros disponíveis, todos os cobertores extras e ajeitei no colo dele, para que não houvesse nenhum contato entre a sua genitália e o meu rosto. Ainda mais que eu tenho o grave defeito de dormir de boca aberta e babar. Já pensou?
Devidamente resguardada, agradeci a generosidade e o desprendimento do meu companheiro de voo, e mais novo amigo, e me deitei. Só que não relaxei de primeira. É certo que o tranquilizante não estava fazendo efeito, mas o que me inquietava era aquele homem ali. Eu precisava descobrir qual era a dele, saber se realmente poderia me entregar a Morfeu ou se deveria me sair de problema.
Para não perder tempo com a investigação, fingi logo que estava dormindo. Ele também não perdeu tempo: começou a me alisar, a fazer carinho em minhas costas, a mexer em meus cabelos…
Eu, que fingia estar dormindo, comecei a achar que havia alguma coisa estranha no ar. Demorou, né? Mas ainda assim nos concedi o benefício da dúvida. A propósito, tem uma comunidade num desses sites de relacionamento cujo nome é: “Sou legal, não tô te dando mole”. E se de repente o cara só estivesse sendo legal mesmo? Afinal, eu também sou assim. E fico puta quando me confundem com uma.
Não demorou muito e o sujeito começou a se empolgar. Na verdade, acho que já estava empolgado, eu é que não quis acreditar. Só sei que ele beijava de maneira afoita minhas costas e minha cabeça, que pensava: “rapaz, esse cara não é humanitarista porra nenhuma! Ele é um bom é de um escroto”.
Eu precisava cortar as asinhas dele. Isso estava claro. Mas não queria provocar um mal-estar, ser deselegante. Só que não teve jeito. A deselegância partiu dele: “ei! vire aí, vá! Vire aí!”. Eu, que estava com a cabeça voltada para a poltrona da frente, perguntei: “virar pra onde, rapaz? Cê é maluco, é?”. Ele respondeu: “para eu te dar o beijo de boa noite”.
Nessa hora, minha cabeça entrou em turbulência, minhas ideias perderam a conexão, se é que havia alguma. Parecia que tinha entrado um urubu na minha turbina. Levantei rapidamente procurando a máscara de oxigênio. Fiquei tonta. Não sei se por causa do levantar abrupto, do tranquilizante ou se pelo que acabara de ouvir. Aliás, até hoje eu me pergunto se ouvi mesmo alguma coisa. Sei lá… esses remédios costumam alterar nossa percepção.
Pelo sim, pelo não, resolvi cair fora. Peguei meu cobertor, meu travesseiro, minha bagagem de mão e fui em direção à porta de saída. Fiquei ali prostrada, como quem espera a parada do ônibus.
A chefe de cabine não entendeu nada. Veio em minha direção, perguntou se eu estava bem e se eu queria um uisquinho para relaxar. Era só o que me faltava: uísque com tarja preta. O verdadeiro black label.
Como eu já estava zonza demais, preferi recusar. A única coisa que eu precisava naquele momento era de um pouso de emergência, pois havia pegado o voo errado. O avião que oferece ajuda humanitária é o da ONU. Não o da TAAG.
Luanda,
Dezembro de 2010.