Buscando a palavra mais certa

Quando escrevo, eu mando a tristeza embora - o que não significa dizer que ela vá. Na maioria das vezes, fica: se disfarça, se esconde e se confunde comigo mesma.

21.10.09

Nas minhas relações com o outro e com o mundo sempre foi perceptível um alto grau de desinteresse e alheamento. Os médicos diagnosticaram Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade.

Hoje, depois de conversar incansavelmente com meu amigo Iata, eu me dei alta.
Consegui manter o foco (sem esforço algum, diga-se de passagem) e em nenhum momento tive o impulso de querer “me sair”, de inventar um compromisso qualquer ou um mal-estar súbito.

Pensando sobre essa experiência (sim, estar com esse cara é uma experiência), percebi que eu não tenho TDAH porra nenhuma! As pessoas é que tem déficit de admirabilidade.

16.10.09

Desilusão

Vão-se os aneis.
Ficam-se os medos.

A serventia da casa

Dizem que quando a vida nos fecha uma porta
DEUS nos abre uma janela.
Eu não tenho do que reclamar:
a minha tem sempre vista pro mar.

Mal-Entendido

Ele foi embora, dizendo que eu nunca lhe dei importância.
Mas não sou burra. Conheço bem desculpa de homem.
Se fosse mesmo questão de importância,
teria estipulado a quantia.

Estilo literal

Sempre me julguei
romântica terceira geração.
Mas nunca passei de
uma sedutora de quinta.

Mortal

Entrar de cabeça nas relações é incauto
e sempre me mete em fria.
É fechar os olhos e preparar o salto
para dar com a cara na piscina vazia.

Sobre o Artigo VIII

É tanta dor que só pode ser amor.

Tô fodida

Para estupro moral
não existe aborto espontâneo.

O revés do parto

Buscando a palavra mais certa para traduzir o sentimento mais impreciso: aquele que não foi vivido. O sentimento que, ao dar sinal de vida, assinou sua própria sentença de morte. E foi covardemente arrancado de mim.
Eu tentei segurá-lo. Tentei com todas as minhas forças e fraquezas, com todas as minhas esperanças e desesperos.
Eu já deveria saber que era um sentimento de alto risco: em poucas semanas encheu o meu corpo de desejo. E não era um desejo simples, como picadinho de Amora. Não. Era um desejo louco: o de um amor inteiro.
Sim, era um sentimento de risco tão alto que não deu pé.
Os pedaços desse sentimento-embrião, que não teve nome nem certidão, ficaram espalhados nas minhas entranhas e a curetagem me fere a alma.
Agora só me resta reclamar seus vestígios. Dá-lo um destino decente. Não é porque morreu prematuro que precisa ser enterrado indigente.

Ao cara que tem me consumido

Há tantos caminhos a seguir quando a ideia é falar de você que acabo me perdendo diante das possibilidades. Os pensamentos ficam desconexos e em desalinho.
O jeito é ir colocando as palavras pra fora, sem nenhuma pretensão de coesão textual ou coerência emocional.

Tem certas coisas que são só suas e que muito me encantam. Uma maturidade, por exemplo, que docemente afronta a minha ao mostrar que para ser feliz basta um pouquinho de coragem.

Também acho massa a sua capacidade de se entregar sem amarras, que faz um contraponto interessante com essa forma impertinente de me olhar, fingindo desconfiança, apenas para me deixar sem graça e me fazer sentir culpada por estar distraída.

Me amarro nesse seu jeito leve de ser. E de estar. Só quem tem sensibilidade índigo e aura cristal consegue ser tão etéreo.

Acho que posso abrir parêntese aqui para blasfemar o Universo por ter lhe colocado no meu caminho. Mesmo sabendo que ele sempre conspira a meu favor, ouso pensar o contrário. Um inútil mecanismo de defesa, vã tentativa de me manter numa zona de segurança emocional, só para não ter o delicado trabalho de desconstruir minhas convicções e ressignificar a mim e a tudo o que eu quis.

Só agora percebo o quanto é difícil falar de você. É correr o risco de expor um sentimento que eu não aprendi a dominar, e que meu instinto de preservação aconselha esconder.

Sei que é um desafio sobre-humano tentar represar algo que já transborda. Mas, ainda que eu me cale, não haverá silêncio nem segredo: os sentimentos têm vida própria e acabam falando por si mesmos.

15.10.09

A Lagart

Venho por meio desta manifestar o meu repúdio ao fato ocorrido no dia 03 de abril, no refeitório do conceituado Jornal A TARDE, onde almoço com certa freqüência.

Em plena hora do rush alimentar, uma lagartixa indefesa tentava se abrigar sob as rodelas de tomates verdes crus, expostas na mesa térmica, quando foi bruscamente arrancada do seu idílio por uma funcionária faminta em busca de salada. Ainda bem que não como saladas! Elas sempre reservam surpresas, quando não lagartos, lagartixas!

Durante o episódio, que teria tudo para ser cômico, se não tivesse sido trágico, um líquido vermelho espirrou na minha mesa. Não posso assegurar, como asseguro as demais passagens desta carta-denúncia, se o tal líquido era sangue da vitima, já que esta foi espetada pelo garfo ferino da funcionária, ou se era um tipo barato de vinagre. Só sei que o tal líquido era de um vermelho ralo, quase transparente, que, antes de me causar revolta, causou-me nojo.

Aproveitando-me do burburinho que se estabeleceu no local, levantei-me e saí do estabelecimento sem pagar a conta. Foi a catarse! Era o mínimo que eu poderia fazer pela lagartixa. Era a forma de eu me sentir vingada por aquele ser que mal conheci, mas que foi para mim, em seus últimos minutos de vida (?), motivo de grande comoção...

Se me arrependo do que fiz? Sim. Arrependo-me. Não por ter saído sem pagar, mas por ter sido covarde e não ter lutado em defesa da pobre lagartixa. Mas, assim como ela, também fiquei sem ação.

Preciso parar por aqui, pois não sei o final da história. E provavelmente nunca saberei. Jamais voltarei àquele recinto imundo! Mas a dúvida continuará para sempre em minha cabeça: será que lá dentro, para onde a vítima foi covardemente arrastada, juntou-se aos seus inúmeros amigos desavisados, que, assim como ela, um dia foram pegos de surpresa? Será que a coitada deixou órfão algum filho, que agora a procura por entre pratos, talheres, cebolas e água de feijão? Será que seu rabo, friamente arrancado do corpo, balança freneticamente clamando por socorro?

Desculpe-me, caro leitor, mas essas perguntas não posso responder. Compartilho com você a preocupação com o destino da pobre lagartixa, cujo único crime cometido foi estar no dia errado, na hora errada, na salada errada.